quarta-feira, 23 de junho de 2010

[stop]

Acho que eu ando com um bloqueio criativo nos últimos tempos.

Não que me faltem idéias para as quais desenvolver longos e confusos parágrafos enrolados como é do meu feitio, mas justamente pela abundância de assuntos para falar e outras tantas razões indefinidas que as palavras me escapam do teclado.
Antes mesmo deste texto, por exemplo, ouvi quinhentas mil duzentas e oitenta e cinco músicas, passei por quatro ou cinco sites de notícias, comecei e terminei uns três e meio assuntos. E nada fluía. As palavras que geralmente me vêm mais fácil que perfume contrabandeado do Paraguai nas últimas semanas têm encontrado a resistência da Receita Federal mental deste meu cansado cérebro desiludido.

Eu realmente não sei qual é o vírus que contamina a minha criatividade. Será o stress de encarar um trabalho sério pela primeira vez na vida? A falta de concentração oriunda de minha felicidade atual, tornando difícil descrever o mar quando se está com a cabeça nas nuvens? Ou será que eu já gastei toda a minha munição verbal e agora tento apenas tirar leite de pedra?

Não. Já passei por isso antes. Tudo que preciso é de um lugar silencioso, um dia inteiro sozinho para escrever, e café.

Ainda assim, um dia volto a escrever bem. Mas, por enquanto, não havendo nada para acrescentar, tão pouco irei escrever.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Um breve pensamento

Uma breve teoria pensada há pouco durante o banho: nós nunca queremos de fato aprender, apenas não queremos errar.

Não estou dizendo que essa é a verdade, ou que estou certo. É apenas uma opinião. E não necessariamente a minha opinião, mas uma qualquer, podendo servir ou não dependendo da ocasião e análise.

Mas, em todo o caso, quando eu digo isso, que nós nunca queremos aprender, e sim não errar, eu espalho a regra para todas as vertentes do nosso cotidiano: amor, trabalho, estudos, família.

Temos o péssimo costume de repetir os erros diversas vezes; não por burrice, ou descuido ou descaso, mas porque não queremos saber o que é o certo ou melhor de fato, nós apenas evitamos errar e algumas vezes sabemos o caminho para tal.

Achamos que é horrível não aprender a utilizar aquela fórmula matemática para equações de segundo grau e nos sentimos um lixo, e estudamos e decoramos para poder não errar e não tirar notas vermelhas. Mas quem, com mais de vinte e um anos e que não estuda na área de exatas, lembra como resolver uma equação com duas incógnitas?

A humanidade, desde a antiguidade, vive em frustrações amorosas e sempre chora suas mágoas alegando que não aprendeu; mas realmente quis? Realmente parou e falou: vou aprender, vou analisar friamente e vou acertar? Imagino que não. Não assino embaixo de minhas estúpidas viagens textuais – mesmo porque muitas vezes me incluo nos quadros citados – mas suponho que a verdade é bem distante do ensino: agimos precipitada ou tendenciosamente, como nos convém no momento, e torcemos secretamente, fazendo vigas e mordendo os lábios, para não ter errado. Se deu certo, a sorte que vá trabalhar nos cassinos, pois nós no fundo não ligamos. Mas se dá errado (e geralmente dá), batemos no peito e dizemos que de agora em diante aprendemos a lição.

É a vida ... Um dia aprenderemos a aprender ... Até lá ...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ele e ela

Em uma conversa de botequim, bebendo aquela cerveja Heineken perfeitamente gelada sob o Sol escaldante em uma tarde de domingo, ele conversa com os amigos sobre a vida pessoal, casos e desejos.

Misturando sentimento e embriaguez, expulsa palavras de desabafo há anos entaladas em sua garganta como quem recita um poema shakespeariano mais do que bem decorado no iluminado palco de um teatro municipal lotado, relatando sua dolorida frustração por não ter aquela companheira especial querida desde criança, quando desenhava seu futuro com giz de cera vermelho em uma folha arrancada de caderno escolar e fazia planos de sustentá-la com seu salário de astronauta quando fosse o primeiro garoto a jogar bola na superfície de Júpiter.
Com mais detalhes que um relatório espião do FBI a respeito de algum suposto terrorista, ele descreve seu desejo de futura paixão inserindo hábitos, marcas de nascença, qualidades, defeitos e tudo mais que, seguindo os padrões de mente e coração solitários, acredita ser o complemento ideal de sua própria personalidade para lhe acompanhar até o fim dos tempos nessa jornada estúpida, íngreme e lítica chamada vida.

Mediante a análise lógica das descrições fornecidas pelo bêbado apaixonado, os amigos - céticos como é natural do ser humano perante questões do amor, universo e vida - informam com pesar a unânime opinião de que só em sonho ele encontraria essa garota que, se de fato não era perfeita no sentido amplo e total da palavra considerando toda diversidade de gostos e culturas existentes neste nosso planeta chamado Terra, era, no mínimo, o melhor possível (ou, no caso, impossível) para ele próprio.

Desacreditado da teoria que julgava conspirar a favor de sua solidão, indignou-se e, saindo do bar, cambaleando entre sujas vielas metropolitanas e garrafas vazias jogadas ao chão, rumo sua residência a quatro quarteirões dali, filosofou sobre sua utópica garota e maneiras de encontrá-la. No Shopping Center do bairro; em uma praia em Salvador; em uma cabana envelhecida de madeira nas Serras Gaúchas; no céu, escondida entre nuvens de chuva e urubus famintos procurando presas indefesas; debaixo do tapete de sua sala de jantar, em um compartimento secreto criado na Segunda Guerra Mundial para refugiados e que agora servia para nada além de cúmulo de poeira; na frente da Casa Branca, em Washington, fotografando a paisagem com uma câmera amadora vermelha em meio a outros vinte turistas japoneses igualmente maravilhados com a incrível cidade norte-americana. Nenhuma maneira soava absurdamente desestimulante e, ainda assim, sabia que, mesmo orgulhosamente relutando em aceitar a sugestão de suas amizades, somente em sonhos a conseguiria.

Quando uma idéia surge em sua mente - obviamente ridícula, mas ainda assim uma idéia (nestes e em muitos outros casos, ainda é melhor do que nada)-: se esta garota só é alcançável em sonhos, por que não simplesmente sonhar? Teoricamente, se o que todos dizem for verdade; e a Razão, apenas por uns dias, decidir tirar férias em Buenos Aires, visitar os atrativos turísticos da cidade e viajar um pouco com o Azar, torna-se então totalmente viável este estranho encontro subconsciente.
Relaxado, deitado em sua confortável cama dentro de seu quarto, trancado e totalmente no escuro, ele se permite dormir.

Acorda em um restaurante chique, dentro de um terno alinhado, degustando um Romanée-Conti, da safra de 1961, sentado em uma mesa com guardanapos de pano e ao som da melancólica harmonia de um quarteto de cordas. Confuso e atordoado, porém não menos satisfeito, tenta ligar os fatos às suas respectivas ordens cronológicas em vão, faltando uma lacuna entre o fechar de olhos em sua casa e a abertura neste exótico estabelecimento, desconsiderando ainda a improbabilidade financeira de sua presença ali.

Repara na arquitetura de classe, na iluminação indireta que dá o ar tradicional ao local, no clima do ambiente, com conversas tão baixas quanto sussurros ao pé do ouvido. Não sabe onde está, nem como chegou.

Olhando a frente, cara a cara, como se, pela primeira vez em toda a história do Universo, a obra encarasse o artista, ele a encontra. Finalmente, depois de uma vida inteira de espera, ele a vê, com o mais encantador sorriso já registrado por olhos humanos. Indescritível. Depois de tanto procurar, e desencontrar, e perder, e prestes a atravessar a linha tênue entre o visionário e o lunático, lá está ela. Mesmo sem a conhecer, sem nunca tê-la visto em nenhum outro lugar, nem ter idéia de sua existência, ele sabia quem era ela. Engasgado em si mesmo, atropelando as palavras como se todas quisessem sair ao mesmo tempo para impressioná-la antes da sucessora, tenta iniciar um diálogo.

Para evitar retóricas desnecessárias e facilitar a eloqüência, relevarei os detalhes mais específicos do encontro. Basta dizer que tudo aquilo que ele sempre esperou era muito menos do que ocorreu. Tudo fluiu como o melhor estruturado manancial e a mais límpida água. Muitos diriam perfeito. Ao julgar pela situação, as risadas, o jantar, a caminhada de volta para casa e a despedida, é melhor simplesmente não dizer nada, pois de fato não há necessidade disso.

No último beijo, aquele que depois do tchau, antes do fechar da porta por ela e a longa reflexiva caminhada retrospectiva dele, acordou. O teto agora iluminado pela luz que invade o quarto denuncia a ficção de tudo. Desanimado, passa café-da-manhã, almoço e jantar, trabalho, lazer e calvário, pensando na hora de deitar, sabendo que ainda há a possibilidade de repetir ou dar continuidade à história.

Dito e feito, a noite seguinte reservou-se para um passeio no parque com ela. E foi assim, por dias, dias e dias.

Semanas e meses se passaram com esses encontros noturnos imaginários. Finalmente estava feliz e completo. Não importava quão difícil, irritante, cansativo ou depressivo fosse o dia, à noite ela estaria lá. Melado, vivia para dormir. E acordava para ter sono, e dormir novamente.

Casou, teve filhos. Construiu uma vida inteira porque era o que esperavam que fizesse. Amava a esposa de dia, mas o coração realmente pertencia àquela que via à noite, traindo em sonhos e sentimento a mãe de seus filhos.

Nos sonhos, ela também envelhecia com ele. Juntos, viveram todas as noites de suas vidas, solitários em si mesmos. Apaixonado casal noturno de boêmios, agora idosos, cansados, aposentados de trabalho mas não de paixão.

E todas as noites, ele se perguntava como era possível viver uma vida paralela em seus devaneios pessoais. Uma vida inteira passada à noite com a mesma mulher. Como uma imaginação podia ser tão constante e real? Mal sabia ele que ali, na casa vizinha, vivia uma mulher - agora também com idade avançada como ele - que todas as noites dormia para encontrar aquele rapaz, que conheceu na mesa de um restaurante imaginário, e caminhou em um parque imaginário, e viveu uma vida imaginária, sem nunca nenhum dos dois sequer supor que, simplesmente batendo na porta ao lado, encontrariam o que procuraram em todos os outros lugares.

sábado, 5 de junho de 2010

Sombras

Nem apagando a luz.
Nem fingindo que não está vendo.
E até mesmo segurar aquele suspiro irritado depois de perceber que contar até noventa e nove não funciona mais é em vão.

Algumas sombras não somem.
Constantes, são as primeiras a darem oi, as últimas a darem tchau e transformam a idéia de levar uma pedrada na têmpora em uma manhã fria de domingo na melhor experiência possível de se imaginar.

E quando aquele silêncio semelhante à tomada de fôlego de um nadador antes do tiro de largada em uma corrida aparece, é para evitar palavras atomicamente afiadas e desnecessariamente explosivas que parecem cada vez mais inevitáveis.

Você até pensa - por um oitavo de segundo ou menos - que está enganado. Que não há ambiguidade ou intento, apenas má interpretação. Mas toda luz acesa, um dia esteve apagada, e ninguém bate o dedo do pé na beirada da cama quando enxerga o caminho. Como a virtuosa improvisação estudada de um jazz, casualidade e planejamento se confundem.

E atrapalha.
A escuridão sempre dificulta os passos do desenvolvimento.
E desgasta como o mais alto ruído quando tudo o que você quer é o mínimo digno de silêncio para conversar com aquela pessoa especial, saber da sua vida, suas histórias, suas ambições e pensamentos e o que consegue é a garganta arranhada por forçar o tom e palavras-chaves perdidas por desvio de atenção e outros sons.

As sombras são líquidas.
Penetram nas brechas de sua ausência e te afogam de um modo que, se tamanho empenho fosse aplicado longe de ti, haveria admiração pelo breu, e não rancor pela cegueira.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Petit

Quando o rosto falha o disfarce e um sorriso escapa da boca, é sinal de que as coisas vão bem. É a prova de que o controle perdido compensa a alegria obtida.

Falando besteiras, olho-no-olho, decifrando os pequenos códigos estampados nos detalhes de cada oração, fica claro - ou pelo menos aparente - de que há algo maior. Tão óbvio que embaça a vista e só a prazo percebe-se a construção.

O pensamento fica bobo, preguiçoso. Uma risada rima com a outra, e ambas riem de si mesmas.

Nesse jogo, nós, lado a lado, me faltam as palavras e sobra o que dizer.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Aquele tênis ...

Aquele tênis que sua mãe comprou para dar de presente e você deixou jogado em um canto qualquer do quarto porque não combinava com nenhuma de suas roupas foi o motivo pelo qual um pobre jovem chinês perdeu o dedo indicador na máquina da fábrica de calçados e não pôde apontar para a Lua no dia em que o céu era o mais lindo que havia visto na vida, perdendo a chance de ser romântico com aquela menina que ele tentava conquistar desde que tinha seis anos de idade, e estudavam juntos na mesma classe, e comiam lanche juntos, e brincavam, e ele planejava ser a paixão da vida dela, mas se envergonhou pela deficiência adquirida após anos de trabalhos insalubres, calou-se, e apenas observou o mais belo da turma galantear sua amada, roubando-lhe a esposa de seus sonhos: ex-futura mãe de seus filhos.
Aquele mesmo tênis foi comprado com dinheiro ganho por sua mãe após 66 horas semanais em um emprego stressante, aturando clientes prepotentes e intolerantes, chefes constantes e ameaçadores, destruídos ônibus lotados, calor, suor, comprimida entre desconhecidos rumo ao mesmo destino final, cansada, sonolenta e com o único desejo de te agradar e ver novamente aquele mesmo sorriso registrado aos seus 5 anos de idade, quando seu pai montou durante a madrugada que deixou de dormir uma árvore de Natal e colocou abaixo de seus galhos plastificados aquele presente embrulhado que você gritou e chorou para conseguir porque viu na televisão, e na escola, pois todos os seus amigos tinham e você queria também.
Aquele tênis, e seu valor comercial, calculando sua porcentagem correta em valores de comissão na loja que foi vendido, foi também os centavos que restavam para que o vendedor, após a jornada de trabalho em uma simples loja de um bairro central metropolitano, rumasse até a joalheria perto de casa e gastasse todas as suas sagradas economias dos últimos dezoito meses, deixando de beber, festejar e se divertir, em um anel de ouro singelo mas apaixonadamente comprado para sua até então namorada, que ao entender a proposta, chorou, e disse "sim", pois tudo o que importava naquele instante era a alegria de imaginar uma vida difícil, porém feliz na medida do possível, ao lado daquele que acreditava ser o seu eterno companheiro de luta.
Aquele tênis foi produzido após meses de estudo, análise e acordos, por profissionais que estudaram anos em uma faculdade particular sofridamente paga com salário de estagiário, servindo café e tirando xerox para superiores, com o sonho na cabeça de um dia ingressar em uma renomada empresa e compensar toda raiva e dor já sentidas.
Aquele tênis, apesar de tudo isso, não foi usado porque você tinha que vestir uma roupa que impressionasse alguma garota naquela balada legal que você costumava ir, garantindo uma noite de diversão e a vida inteira de indiferença. E aquela garota, que após meia hora de conversas e trocas de olhares interessantes e interessados, acreditou ter encontrado o melhor rapaz do mundo, e se apaixonou no mesmo instante que os seus lábios se tocaram; e nas semanas seguintes, quando você não ligou, ela ficou traumatizada, nunca pôde confiar novamente em outra pessoa, e viveu o resto de seus ordinários dias sozinha em um sobrado olhando pela janela e criticando as crianças barulhentas que jogavam bola na rua e só queriam saber de fazer um gol entre aquelas traves feitas com pedras e chinelos.
Aquele tênis é somente um tênis, mas também é a maior prova de como as menores coisas da vida significam muito, para muitos, e às vezes não se dá o valor adequado às coisas que realmente importam. Inclusive eu, e minhas palavras, e este texto.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Palavras sobre poucos minutos

Manhã de um dia de semana comum. Um céu despretensiosa e uniformemente cinza europeu coadjuva a paisagem exposta diante de meus olhos, eclipsado pelas barras metálicas da janela de um quarto, agora frias devido ao clima invernoso, outlier entre todos os dias de todos os meses de todos os outonos desde todo o sempre.
Deitado naquela cama - que se não for a melhor do mundo, com certeza merece menção honrosa - como recheio entre cobertores e colchão, me recuso a aceitar a doce claridade que anuncia o começo da empreitada diária e decreta o fim do descanso preguiçoso que todo homem acredita merecer por no mínimo uma vez durante sua existência.

Meus pensamentos ainda horizontais se levantam e a saúdam quando passa entre os umbrais de madeira que dão acesso ao quarto.
Ela que até agora se banhava em água quente enquanto eu me irrita com luz, clima e tempo, atrai pra si toda minha tímida atenção sonolenta sem nem ao menos precisar querer tal mérito natural.
Admiro seu corpo ao colocar a roupa e analiso cada detalhe como se a pele, o cabelo, o rosto, as pernas, braços e todo o resto fossem milimetricamente desenhados com pincel de Marta por algum genial artista renascentista altamente inspirado no melhor dia de sua vida.

Ela dá um sorriso e pula em cima de mim para desnecessariamente me desejar um bom dia, já que esta simples ação já o tornou realmente ótimo. Retribuo singelamente, mas com milhões de frases secretas escondidas na ponta da língua, espetando meu cérebro com a vontade da profissão no mesmo sentimento crônico do pé suicida ao pisar no vazio sabendo que seu par já se encontra no limite do abismo. A iminência do desconhecido me dá apenas a certeza de não saber o que está acontecendo, e ainda assim adorar.