sábado, 15 de setembro de 2012

A moral


Se um ladrão traficante estuprador pedófilo que maltrata mulheres está dirigindo um carro roubado com placa alterada e bate no carro de uma idosa que vai para a Igreja todo domingo, doa parte de seu dinheiro para instituições de caridade, ensina voluntariamente crianças e decidiu, segundos antes, fazer um “gato” e, ao invés de ir até o final da avenida movimentada para pegar o sentido contrário, dar a meia volta e cortar a rua, pois estava atrasada para pegar o seu neto na escola, de quem é a culpa pelo acidente?

Se uma mãe de família, recebendo menos de um salário mínimo por doze horas diárias de trabalho como faxineira, com dois filhos para criar e sem tempo para cuidá-los decide votar naquele político do bairro conhecido por “truques”, malandragens, corrupção e falcatruas porque ele concedeu uma bolsa de estudos em um colégio particular da região para seu filho mais novo ter a chance de uma educação não tão ruim e quem sabe um futuro, quem está errado?

Se um rapaz, pai solteiro, está passeando pela rua e é testemunha de um assassinato após um assalto em uma mercearia e mente para a polícia que não viu o rosto do ladrão por temer que o acusado - vizinho que o chantageou e ameaçou de morte – possa cumprir a promessa e prejudicar suas filhas de 11 e 9 anos, o quanto ele também é grave cúmplice?

A moral é relativa. A moral é inconstante. A moral é um mito, pois é intrínseca às noções de certo e errado (que por si só não existem, são meramente culturais). Como dizer para um garoto islâmico que cresceu a vida inteira rodeado de pessoas com costumes e hábitos diferentes, sendo convencido e ensinado que outras culturas estão difamando suas crenças, que a religião católica, por exemplo, é a certa? Por que a monogamia é correta e necessária, quando vai contra nossos instintos e vontades interiores? Todo marido bondoso e preocupado dá uma olhada discreta na vizinha que abaixa para pegar uma coisa na rua por baixo de seus óculos escuros quando a esposa não está olhando. Isso faz dele pior? Isso faz dele menos dedicado? Isso o torna menos marido? Tudo porque alguém, anos atrás, disse que um barbudo invisível com superpoderes no céu decidiu que ninguém pode fazer isso porque ele manda e ponto final?

A moral só existe porque amamos julgar. Adoramos abrir aquele sorrisinho discreto no canto da boca quando vemos alguma pessoa que não gostamos se dar mal.

Nesta era de excessos nojentos do politicamente correto e ter que pensar demais naquilo que expressamos, pois sempre alguém vai tomar as dores de algo que não lhe foi dirigido e nem cabe no seu contexto, a moral vem como o calor consequente do fogo. Um fogo que nos atrasa e queima a criatividade e o desenvolvimento, nos deixando as cinzas dos preconceitos e imposições.

Temos valores pré-definidos e nem sempre lógicos que tomamos como verdade e ficamos bravos quando não concordam conosco. Gostamos de usá-los para entender os fatos, porque é mais fácil. É mais fácil aceitar as nossas eternas definições passadas de geração em geração do que mudar e ver a realidade. Perdemos os argumentos. E rejeitamos a razão, pois moral e razão nada têm a ver uma com a outra. Podem coincidir, mas jamais serem sinônimos.

Julgaremos e seremos julgados, para morrer em vão e pensarem que estamos felizes (ou tristes) em algum outro lugar.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Churrasco divino


Entediado, já que não trabalhava desde o sétimo dia da Criação (quando parou para descansar), Deus resolveu dar uma festa em sua casa. Mais especificamente um churrasco.

Chamou todos os grandes personagens bíblicos da história para que apreciassem aquele dia ensolarado nas nuvens, acima dos homens e do tempo.

São Pedro, o caseiro e possuidor das chaves para o Reino dos Céus, foi o primeiro a chegar, trazendo com ele seus irmãos Tiago e João, pescadores.

O Senhor esperava que eles ficassem responsáveis pela carne através da pesca, e por isso, ao convidá-los formalmente em carta, registrou, a próprio punho, a quantidade exata necessária para alimentar todos os convidados e que, severo como era, não aceitaria a desculpa de que “o mar não estava para peixe”. Porém, nada ocorreu conforme planejado. Os três traziam apenas um quinto do que foi ordenado.

Confuso, Deus analisou os fatos e descobriu o ocorrido: como escrevia “certo, por linhas tortas”, os apóstolos não conseguiram decifrar a letra divina e se confundiram ao cumprir suas obrigações.

- Tudo bem, – disse Deus – tudo ao seu tempo. Logo mais o problema será resolvido...

Coincidentemente, ao finalizar sua sentença, a campainha tocou: era Jesus, seu filho. Com um forte abraço, pai e filho se cumprimentaram, e brevemente conversaram sobre o impasse há pouco citado.

O filho do Criador chegou à frente dos peixes, estendeu os braços em posição de benção, suspirou fundo e, como em um passe de mágica, uma explosão de luz preencheu a casa inteira e, retornando tudo ao normal, havia mais peixes do que Deus havia ordenado originalmente.

O pai pegou um dos animais, deu uma mordida, apreciou, engoliu. E viu Deus que era bom! O Senhor estava contente, a festa poderia continuar.

Aos poucos, os convidados foram chegando...

Noé ficou encarregado das bebidas e, na dúvida de qual marca de cerveja comprar, trouxe duas de cada.

Adão, sua esposa Eva e o seu filho Caim também chegaram, trazendo frutas (principalmente maçãs) e legumes. Os convidados estranharam a criança do casal.

- Adolescente problemático, – disseram os pais – está passando por uma fase. Ciúmes, rebeldia. É uma ovelha negra...

Caim ficou a festa inteira sentado em um canto, mexendo em seu smartphone.

Com muita alegria e disposição, enfim, convidado por convidado entrava na casa, trazendo algo para a festa. O último a chegar foi Judas Iscariotes, que não trouxe nada para o evento. Ainda assim, muito educado e sem graça, saudou todos os convidados e beijou seu velho amigo Jesus.

A festa começava...

Deus, levitando sobre todos, abriu os braços, sorriu e disse: “Faça-se a luz!”. Imediatamente, a música eletrônica começou a tocar, o jogo de luzes criava um efeito alucinógeno, e os efeitos pirotécnicos e de fumaça funcionavam perfeitamente. Uma festa santificada.

Todos estavam muito felizes. Com a bebida rolando, não podiam faltar brincadeiras mais soltas daqueles que se exaltavam.

Davi, pequeno e tímido, quis saltar do trampolim e dar um mergulho na piscina, para tentar impressionar Betsabé, uma moreninha com quem teve caso recente. O pequeno rei estufou o peito, fez pose e saltou. Vendo a cena, e já um pouco embriagado, Moisés bateu com seu cajado na beira, fazendo com que as águas abrissem e Davi fosse de encontro ao chão. Foi uma gargalhada sem fim. Moisés chorava de tanto rir, junto com Jacó e Esaú.

Irritado com a brincadeira sem graça, Davi pegou um pedra e partiu para cima de Moisés. Uma calorosa discussão começava. O baixinho ameaçou matar o profeta. Todos estavam tensos, com exceção de São Tomé, que provocava a situação, dizendo que só “vendo para crer”.

Pacientemente, Jó abriu caminho entre todos, e dialogou com os dois. Conversou com calma, ouviu, explicou detalhadamente seu ponto de vista e resolveu a situação. Logo a festa reiniciava.

Depois de um tempo, as bebidas acabaram, e o pessoal começou a reclamar com Deus, o anfitrião. Preocupado com sua fama, o Senhor novamente chamou seu filho de canto e, secretamente, pediu auxílio. Jesus, de olho em Maria Madalena – que se insinuava mais e mais a cada nova dose de bebida – em voz alta, para que todos ouvissem, proclamou: “Tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei!”, e, novamente, tão rápido quanto um estalar de dedos, a piscina inteira estava cheia de vinho de ótima qualidade. Todos comemoraram e continuaram a dançar.

Maria Madalena sorriu para o filho do Senhor, enquanto tomava um gole daquele vinho. Um pouco do líquido escorreu de sua boca até o queixo e, lentamente, ela se limpou com a mão pelos lábios. Jesus mordeu os seus enquanto observava e se mostrou visivelmente abalado. Maria riu desta confusão enquanto Jesus suplicava: “Perdoai-me, não sei o que faço...”.

Havia também refrigerantes para aqueles que desejavam permanecer sóbrios diante do Senhor, mas João, um primo distante de Jesus, resolveu “batizar” secretamente as bebidas com vodka, para que todos alcançassem o verdadeiro nirvana alcoólico.

Os convidados perderam o controle.

Lucas, alucinado, tentou empurrar Jesus na piscina. Este, deixando se enganar de propósito, ficou na beira, aguardando. Com o empurrão, Jesus começou a andar sobre as águas e foi parar no meio da piscina, em pé. Todos começaram a rir enquanto Jesus dançava acima da piscina para provocar o convidado.

Até mesmo o dono da casa, bêbado, enquanto tentava acender um cigarro, tropeçou e a bituca caiu aos pés de uma árvore, que pegou fogo. Tonto, Deus olhou aquilo e pensou que fosse um espelho, e tentou imitar a vegetação que inflamava.

Para finalizar o evento, todos propuseram um tiro ao alvo: alguém trouxe um pecador terrestre para a festa e, atrás de uma linha demarcada, os convidados esperavam a autorização de Jesus enquanto seguravam pequenos pedaços de rochas. Quem acertasse primeiro, ganharia uma nova auréola dourada.

Jesus, com ar solene, levantou um dos braços e, dirigindo-se a todas as divindades, santos e figuras bíblicas, anunciou:

- Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra!

O anjo Gabriel foi o grande vencedor, e desfilou seu prêmio voando alegremente acima de todos.

Aos poucos, todos foram embora, felizes, cansados. A festa ficou por muito tempo na memória de todos; e os céus aguardam o dia de mais uma festa divina memorável como aquela...

domingo, 27 de novembro de 2011

Como cães e gatos


Homens e mulheres são animais. Espécies incompletas e distintas que necessitam um do outro para existir. Dois caminhos para o mesmo lugar.

O homem é como um cão.

Cães são explícitos, diretos, barulhentos. O cão, querendo algo, pede, chora, late. Pula em cima do benfeitor clamando a urgência da atenção.

Cães são determinados: querem suas vontades realizadas logo. Não desistem até conseguir, ou apanhar do mundo.

A vida é curta para ser racional demais.

Mulheres são como gatos.

Gatos não pedem, indicam. Criam condições e sinais para que o alvo entenda o recado. São sedutores e sabem que o prêmio perde a graça sem competição.

Gatos não solicitam massagens: comentam das costas doloridas.

Inteligentes e calculistas, eles tem nos movimentos delicados as mais brutas intenções.

Gatos trocam olhares, provocam. Avançam silenciosamente pelo recinto e se deixam disponíveis. Cães se jogam aos seus pés esmolando o carinho alheio.

Mulheres: homens são bobos. Somos seus... E sabemos que não darão o braço a torcer autenticando a reciprocidade. Mas gostamos disso!

Neste jogo, paixão e estratégia são trunfos perigosamente magníficos. Um passo em falso, e perdemos peças no tabuleiro.

Buscando a dose perfeita, bebemos da vida e tentamos equilibrar a balança.

Ganhemos todos e que vençam os melhores.

E se for para perder, que seja um se perdendo no outro, até o fim!

sábado, 8 de outubro de 2011

psiké

Avanço rapidamente por um corredor escuro de plantas vermelhas brilhantes. Rumo uma densa luz azul clara vinda do final, corro incansavelmente. Me apoio nas paredes e percebo uma consistência elástica emborrachada, leve, flácida. Não consigo me segurar. A cada apoio, bambo frente e trás. Um João Bobo, tão João e tão bobo. Percebo que o chão é gelo e derrapo.

Escorregando, cada vez mais rápido, pelo labirinto de flora gélida que me encontro, entro em desespero. Não consigo parar. Mais e mais rápido, tropeço entre minhas pernas e o piso. Todo passo é uma geada. Poeira fria que sobe e me cega. Não sei mais onde estou. Tudo é tomado por neblina fria e caos.

Paro de repente em uma caixa de areia. Meus pés sentem o alívio da fixação. Silêncio.

Silêncio e Sol.

Tanto Sol que ouço as moléculas salinas queimarem pela temperatura. Nenhum som. Nenhuma nuvem. Somente o ardor da terra. Eu suo, eu grito. Não faço idéia do que está acontecendo.

Olho em volta... Deserto. Lembro que não sei de onde vim, nem para onde vou. Sinal algum de outra coisa em minha volta. Somente areia. Por todos os lados...

Com o astro rei exatamente sobre minha cabeça, penso ser meio dia.

Tento respirar fundo, mas trago areia. Grãos em meus pulmões. Pesando. Preciso cada vez de mais ar. E cada inspiração mais necessitada, mais areia. Sufoco.

Irritado, levanto minhas mãos ao céu e pulo de raiva. Pulo. Pulo tão alto que não paro de subir.

Subir... Sem gravidade...

Perco o controle e o senso. Remexo o corpo em busca de algum sentido no ar. Caio no fundo de uma piscina em um clube de campo.

Crianças brincando na beira. Pais e mães tomando seus drinks, sentados em cadeiras de plástico sob um guarda-sol colorido. Música alta, tobogãs, sorvete. O que está acontecendo?

Ao tentar me levantar, enrosco o pé em algo. Uma corrente metálica. Percebo ter puxado a tampa de um ralo.

Como uma descarga, corpo, água e tudo mais rodam até o fundo do nada. Rodando e rodando e rodando interminavelmente na escuridão sombria de um buraco negro.

Gostaria de falar que sim, e que era um sonho. Mas é só o começo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Eles ainda mudam o mundo

A história de um casal. Falemos primeiro dela.

Menina polêmica, sempre foi muito inteligente. Afirmava com absoluta certeza que o que lhe importava de verdade era a beleza interior. Criticava sem piedade aqueles que não enxergavam a inteligência como verdadeiro afrodisíaco. Jamais foi superficial. Aproveitava o tempo livre para inserir fotos de seus ensaios fotográficos nos álbuns das redes sociais. Tinha a enorme preocupação de não repetir o mesmo vestido (por mais caro que fosse comprar um novo) e passava horas aprendendo os efeitos do Photoshop para tirar as espinhas, diminuir imperfeições, melhorar cor, brilho, contraste e, de quebra, parecer uma modelo consagrada. De qualquer maneira, não ligava para aparências.

Adepta do budismo, ela levava uma vida zen. Gostava de passear à tarde no parque, tomar uma xícara de café enquanto ouvia músicas relaxantes e lia um bom livro. Acreditava que uma menina tinha de se dar o devido valor, se guardar, que um dia apareceria o verdadeiro amor de sua vida. Talvez por isso beijasse onze rapazes na mesma noite, em alguma balada de renome da cidade, sem saber nome, idade, profissão: integridade.

Vegetariana temperamental, arrumou briga uma vez com o funcionário de uma lanchonete que derrubou ketchup em seu casaco de pele de chinchila.

Um dia, no vai e vem da vida de confusões e absurdos, conheceu um carinha diferente.

Falaremos agora dele.

Ele, rapaz diferente, popularmente chamado de hipster pelos amigos, sempre se destacou dos demais. Não era como os outros, que só pensava em dinheiro. Pelo contrário, ele sempre foi defensor mordaz de uma ideologia esquerdista: lia todos os escritos de Marx e odiava de coração a burguesia capitalista, aos quais chamava de “porcos”.

Todo final de semana acordava com o despertador do seu iPhone, vestia seus confortáveis tênis Nike, um casaco da Adidas para não passar frio, entrava no carro emprestado pelo pai e dirigia rumo à alguma manifestação/passeata política. Enquanto ouvia no som do veículo algum CD do Dead Fish, filosofava sobre como a sociedade era alienada. Não entendia o desrespeito que um ser humano pode ter com o outro. De vez em quando se irritava quando alguma senhora de idade tentava, com dificuldade, atravessar a rua sozinha e parava em frente a seu carro. Buzinava, gritava. Tinha pressa para chegar a seu compromisso para melhorar o mundo e as relações interpessoais.

Jamais teve um emprego. Lutava justamente contra as grandes corporações que exploravam cruelmente seus funcionários. Preferia ganhar algum dinheiro vendendo para seus amigos discografias em MP3 e filmes antigos gravados em seu computador, mesmo quando a empregada doméstica contratada sem carteira assinada pela família insistia em atrapalhar seus negócios limpando o seu quarto e mexendo em suas coisas.

Os dois se conheceram na faculdade. Ela fotografou seu rosto em sua câmera profissional enquanto ele instigava uma greve dos alunos do curso em favor de uma mesa de sinuca para o centro acadêmico da universidade. Dias depois, ele babava pela mini-saia dela que, em uma noite de inverno, “esqueceu” de colocar um casaco e calça jeans porque viu um pequeno Sol da janela de seu quarto.

A partir daí, virou amor. Do resto todo mundo sabe a história: se conhece, sai, se apaixona, diz que é amor da sua vida, que um jamais viverá sem a presença do outro, e na semana seguinte está transando com outra pessoa e afirmando que “solteira(o) sim, sozinha(o) jamais”.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Jonathan Lauton Domingues

Não entendo de verdade a homofobia.

Sou hétero convicto desde o nascimento e gosto muito do sexo oposto, mas isso não me dá motivos para odiar quem não compactua com meus desejos.

Eu até entendo a vida difícil que levam esses jovens que se juntam em rebanhos a favor do ódio e da intolerância. Não é fácil ser um adolescente de classe média alta, sustentado pelos pais, vagabundo desde o berço, ganhando todos os brinquedos e mimos pelos quais chorava, estudando em ótimos colégios e usufruindo do suor da família para auto sustento e satisfação.

Essa vida dura, de longas viagens, shopping centers com biscates púberes de portas de escola, chocolate e sucrilhos sem fim, cinemas, iPods e mesadas polpudas realmente justifica atos como, por exemplo, acertar uma lâmpada no rosto de um desconhecido.

Mais recentemente, pai e filho foram agredidos (o mais velho inclusive perdendo parte da orelha) por um grupo de acéfalos enquanto visitava uma exposição de mães de agressores homofóbicos ao serem confundidos com gays.

Não perco meu tempo dando lição de moral. Mesmo porque sei que, para a família desses garotos, sempre foi prioridade as aulas de Yoga da mãe e o carro conversível do pai, ao invés da educação correta do filho. Isso, a escola católica ao qual o rebento foi matriculado foi responsabilizada. Os pais, coitados, não tinham tempo para estes ensinos com o pouco tempo de intervalo entre um restaurante chique e alguma exploração trabalhista da empregada doméstica que cuidava de seu apartamento de vários dormitórios em alguma área residencial de luxo.

Mas, de qualquer maneira, fica minha curta mensagem de indignação com estes fatos recentes e a sugestão de uma pena mais "islâmica" para tais indivíduos. Nem que, para isso, se aplique a Lei de Talião e - parafraseando e já prevendo o que disse Gandhi - acabemos todos cegos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Davi e Golias

Davi se arrumou e foi para a balada. Entrou no recinto, tímido, de cabeça baixa e desconfiado. Gente diferente do que estava acostumado. Comprou uma dose de whisky para começar bem a noite e foi à pista.

Música alta, luzes psicodélicas, aquela fumaça que fazia mal a seu nariz e mais pessoas que o transporte público no horário de pico de uma segunda-feira.

De lá, viu ela, que dançava como se o mundo acabasse dali horas e sua silhueta fosse a reflexão do que mais sublime havia na humanidade já esquecida. Parou. Pela primeira vez não tinha palavras.

O que dizer? O que fazer? Era tão atraente quanto uma folha de papel almaço e tinha a desenvoltura de uma catraca de ônibus. Achou melhor esperar e voltar ao bar.

De lá, avistou Golias, que no oposto exato de si não hesitava em seguir os confusos rumos de sua própria vontade e fazer o que fosse preciso para realizar seus desejos.

Inédito em exposições ou museus, mas PhD em TOP 10 de rádios FM e depoimentos de Orkut com letras coloridas e de diferentes tamanhos com frases prontas de impacto que geram sorriso de qualquer menina ingênua, o gigante via na donzela um alvo. Que fosse mais um da noite: aquelas conquistas fáceis da natureza que esquecemos a realização segundos depois de acordar pela manhã, vestir a camiseta, tomar um café e não deixar sequer um contato.

Davi, Keraouc que só, não compactuava com tal atitude e não via chances de competição diante do evidente contraste dos pontos de vista, e encontrou no maço de cigarros escondido no bolso direito da calça jeans uma válvula de escape e relaxamento.

Na área de fumantes, cada trago reforçava a decisão de voltar ao campo e ratificar o mito do menor se fazendo valer contra o mais forte.

Calmo, com outra dose na cabeça e menos correntes na esperança, ele voltou ao lounge para avistá-la.

Como dona do recinto, ela dominava seus sentidos. Davi queria cantar todas as canções românticas daquela banda independente que ninguém conhecia ao pé de seu ouvido, e discutir por horas sobre o livro que estava lendo, cujo falecido autor não foi reconhecido em vida, mas um dia ainda provaria a competência. Infelizmente, ao contrário de Golias, que dançava cada vez mais perto daquela figura, recitando os versos que o DJ soltava na caixa de som de forma desafinada e convicta, ele não conhecia a letra da música.

Sequer sabia dançar. “Um pra lá e outro pra cá”, como viu um dia na televisão em um sábado tedioso em que a internet caiu, não funcionava tão bem para ele na pista de dança. Deslocado, encontrou na parede um apoio melhor que suas crenças.

E Golias crescia ainda mais. Chegava perto, sentia o pescoço quente da pequena e juntava suas mãos às palmas dela, que sorria. O terceiro gole de whisky não servia tanto à Davi para separar e vencer o adversário quanto para lhe causar certa tontura: acreditou que mais um pouco daquela nicotina barata comprada na banca de jornal seria o trunfo final da grande batalha.

Na varanda, em meio às nuvens de fumaça e silêncio, imaginava que, simultaneamente, Golias levava vantagem. Sua mente criava um filme onde o gigante histórico conseguia a garota, em meio a lábios unidos, cabelos puxados e perfumes misturados. Davi, cuja vontade era ele ser o personagem principal deste pesadelo, colocou um ponto final ao jeito low profile de ser e, de peito estufado e mais galã do que nunca, transitou entre desconhecidas multidões atrás dela.

Correu e empurrou, decidido.

Chegando ao ambiente retratado em quase totalidade desta história, Davi não encontrou nada além do vazio. Eles não estavam lá. E, apesar da pouca esperança de engano que um coração apavorado pode criar, ele sabia que não voltariam. Não agora. Pelo menos não mais naquela noite.

Aquele dia, Davi guardou a pedra de volta no bolso, a Bíblia estava errada e o gigante venceu.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ele

Caminhava um sujeito pela calçada. Distraído, silencioso, mãos no bolso e mente no céu. Em um breve momento de percepção aguçada, ouviu seu nome sendo dito não muito longe dali.

Virou a cabeça de um lado, do outro. Seus olhos percorriam a rua em busca da fonte daquelas palavras. Em um bar fechado, atrás das janelas de vidro, em uma pequena mesa redonda, rapazes conversavam. Alguns de óculos de grau, outros de boinas, calças xadrez, cigarros, camisas de flanelas, cafés, tênis All-Star, barbas por fazer, camisetas de bandas alternativas, iPhones, citações de Bukowski, Shakespeare, Dostoiévski e certas inclinações esquerdistas. Eram claramente uma elite intelectual.

Um deles mencionou novamente o nome do indivíduo. E riu. E fez os outros rirem também. Prestando mais atenção no diálogo alheio, o sujeito percebeu que o grupo argumentava o quanto eram superiores por terem certeza de que ele não existia, enquanto a massa humana alienada o venerava.

Revoltado, não conseguiu acreditar, enquanto olhava para si mesmo, suas mãos, suas roupas, seu reflexo no vidro na parte de fora do estabelecimento, que alguém ainda assim poderia afirmar sua inexistência.

Tímido, sem saber ao certo como intimar o grupo pessoalmente, correu até o primeiro que encontrou na rua - por coincidência, um mendigo. Solicitou ao morador de rua que entrasse no bar e contasse aos jovens que conversou com o sujeito em questão, e que o mesmo comprovou sua existência.

Assim feito, obviamente que os tão intelectualizados rapazes caíram em gargalhadas. "Você é um louco! Um mendigo! Você não é ninguém!" diziam ao infeliz.

Ficou claro que o sujeito, que a partir de agora, para facilitar a narração, chamaremos de Zé, deveria encontrar alguém com maior credibilidade social para concretizar seu desejo. Um sem-teto não tem o peso necessário à importância da informação.

Procurou então um empresário que passasse por perto. Ao encontrá-lo, para não ter dúvidas de que seu plano daria certo desta vez, ainda por cima lhe concedeu sua própria carteira de identidade para demonstração. De terno alinhado, penteado e sorriso no rosto, o empresário recebeu uma rápida negativa dos rapazes de dentro do bar. "Um charlatão! Um aproveitador! Ficou rico à custa da enganação" foi o que ouviu. "Quanto a este documento: quem pode afirmar que é verdadeiro? Só porque está escrito em um pedaço de papel qualquer, não significa que é real!" disse um deles, arrancando aplauso dos outros por argumento tão sagaz.

Extremamente irritado, em um ato precipitado de fúria, Zé socou, do lado de fora, a janela do bar, espatifando em mil pedaços o vidro em sua mão.

Todos os outros clientes do bar, assustados com o que ocorreu e lembrando dos dois indivíduos que haviam causado tumulto anteriormente na mesa dos rapazes, iniciaram então um coro contra aquele pequeno grupo, tentando arduamente e em vão convencê-los a mudar de opinião.
"Isso não significa nada!" - diziam - "O vidro já estava velho. Uma simples brisa de verão poderia quebrá-lo. Um acontecimento banal e natural não é sinônimo de milagre!".

"Desisto!" - pensou Zé - "Precisarei eu mesmo me mostrar à eles". Tomado de coragem, então, em uma iniciativa inédita e desesperada, Zé adentrou o bar, meio tímido, meio inseguro, e se dirigiu à mesa dos rapazes.
Todos olhavam perplexos: clientes, funcionários, pedestres. Ninguém esperava esse tipo de atitude de alguém como ele.

Zé postou-se em frente à mesa do grupo e com orgulho e autoridade na voz, afirmou "Cá estou!". Inicialmente calados e confusos, os rapazes começaram então um tiroteio de frases prontas e réplicas: "Holograma! Ilusão! Mentira!". De modo nenhum dariam o braço a torcer, admitindo que o sujeito que ali se encontrava era de fato o Zé, apesar de todos os indícios contrários.

Triste, decepcionado consigo mesmo e com os próximos, Zé saiu do bar olhando pra baixo, apenas escutando os risos prepotentes do grupo atrás. Parou na calçada, fez sinal, e pegou o primeiro ônibus sem número até lugar nenhum, desaparecendo para sempre daquele lugar.

"What if God was one of us
Just a slob like one of us
Just a stranger on the bus
Trying to make his way home"

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Brincar

Sentado na poltrona do avião, ele afrouxa o nó da gravata. Seis horas no aeroporto esperando a conexão acabaram com qualquer resquício de humor no seu dia. Discretamente, tira os sapatos e sente pela primeira vez em tempos, mesmo que por segundos e de meia, os pés livres em contato com o chão.

Da maleta, tira o notebook já carregado para trabalhar. Alguns relatórios não foram concluídos, gráficos precisam ser refeitos e aquele e-mail prometido para a supervisão já está atrasado. Antes de tudo, abre a pasta Músicas de seu HD, insere o fone de ouvido no local correto e relaxa ao som de sua banda preferida. Menos de dois refrões depois, já está digitando freneticamente nas incontáveis páginas e documentos exibidos na tela.

O vôo parte.

Em meio ao caos de idéias e labutas virtuais, uma janela diferente aparece na barra de tarefas, piscando constantemente sua cor alaranjada. No MSN, sua esposa dialoga com o marido já duas semanas ausente devido à rotina nômade que sua carreira lhe impõe. Saudades são explicitadas, singelas declarações trocadas por palavras pesadamente simples de quem por tempos já disse de tudo.

...

De repente, um barulho. O avião começa a tremer como um epiléptico na cama durante um terremoto. Ele se agarra aos braços da poltrona, respira fundo, e tenta permanecer calmo... As luzes piscam.

Sacudidas e balanços maiores. Pulos. Sobressaltos. A tripulação não esconde a preocupação que se espalha também entre os passageiros.

Pela janela à esquerda, dois imensuráveis furacões negros pairam sobre o oceano. Em meio à ambos, a aeronave sofre pelo cabo de guerra gravitacional entre ela, os dois e o chão.

Rodopios, objetos voando, desespero. Máscaras de gás foram liberadas e a certeza da morte é cada vez maior. Ele grita. Pensa em tudo que viveu, tudo que poderia viver. Pensa nos filhos, na casa, na mulher. Naquela promoção do trabalho. Nas contas do fim de mês. No pudim que ficou na geladeira e que prometeu a si mesmo pegar um pedaço quando voltasse.

Mais rápido e mais intenso, o avião desce rumo à terra em uma velocidade cada vez mais aterradora. Chamas maiores que homens explodem das asas e demais estruturas. Desmaios, convulsões. Ele, por si só, pálido e imóvel diante de tanto absurdo. Um pássaro de metal morto caindo dos céus. Quando o bico da nave já está quase alcançando a altitude zero, tudo pára!

...

Uma criança, com três anos de vida e menos ainda de experiência, olha para cima. Ao ver a mãe chamando seu nome mais uma vez, deixa os brinquedos espalhados no quintal e segue correndo em direção à porta, interrompendo a aventura na hora do jantar.

Brincar é a coisa mais séria que o ser humano pode fazer.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Poesia etílica

Rancor? Licor!
Alegrinho? Então vinho!
Arrisque: uísque!
Mas veja: cerveja não é tranqüila? Tequila!
Mais um? Rum!
É craque? Conhaque!
Sem lógica? Vodca!
Faminto? Absinto!
Para quê? Saquê!
Está afim ou quer gim?
Poema sem graça? Cachaça!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011 e os outros

Sentado na calçada, de gorro velho na cabeça, segurando uma garrafa de pinga vagabunda com as costas quentes encostadas na parede gelada, ele olha para o céu noturno em atual ebulição. Fogos de artifício explodem em gamas inimagináveis de cores e formas, preenchendo o breu com beleza, encobrindo as estrelas cotidianas com seus brilhos energéticos.

Sem ninguém para abraçar, dinheiro para gastar ou branco pra vestir, diz “Feliz ano novo” para si mesmo, sabendo que de feliz pouco verá e de novo nada tem.

Duas horas depois, ainda frescas na lembrança as imagens das comemorações no céu, a rua está em paz. Embriagado, cabisbaixo e sozinho, começa a refletir sobre a vida, os caminhos tomados, as decisões erradas, tentando entender onde e porque tudo deu errado.

Sons distantes começam a perturbar o até então ensurdecedor silêncio urbano. São os carros a toda velocidades e cheios de sorrisos sob música eletrônica alta pelas avenidas principais. Casais, amigos e famílias, todos eles alegres e aquecidos pela própria felicidade, voltando para casa, sonolentos e alienados ao mundo, prontos para descansar das festividades e voltar à vida como ela sempre foi.

Ele queria estar lá. Em qualquer lugar. Com qualquer um. Queria, ao menos uma vez, estender a mão a uma linda mulher para solicitar uma dança, e não implorar um almoço. Desfrutar de uma ceia, tomar champagne debruçado na varanda de um prédio enquanto observa o extasiado horizonte colorido explodir. Ter um relógio no pulso para, pela primeira vez, seguir corretamente a contagem regressiva, e não somente imitar o coro daqueles que comemoram em alto e bom som nos bares de esquina da vida.

Não muito longe dali, três quarteirões abaixo, no terceiro andar de um belo edifício metropolitano, ela usa um longo vestido branco. Decote discreto, cabelo liso tingido e colar de pérolas no pescoço. Sob as luzes de velas em uma pequena mesa de madeira, em uma confortável cadeira solitária e os cotovelos apoiados na mesa, ela olha um porta-retrato do outro lado da sala. Com cara de recordações, lembra do marido que meses antes saiu para comprar pão e não voltou: piscou os olhos durante um tiro de revólver e nunca mais os abriu. Deseja um ótimo ano novo para a foto mais bonita que teve a oportunidade de revelar e se derrete em prantos.

Agora já plena madrugada. As reuniões estão acabando. As pessoas se recolhem em seus aposentos. No centro da cidade, perto da janela de um quarto de hospital público, um terceiro personagem, idoso, vivido e contido, respira sofregamente. Olha para o Sol que começa a surgir no horizonte. Reza, pela primeira vez na vida, e pede um feliz ano novo. Desta vez, também de forma inédita, não para si mesmo, mas para amigos e familiares. Fecha os olhos, inspira profundamente, dá um último sorriso e cai em pensamentos, não tendo tempo de sequer presenciar a primeira manhã do primeiro dia do ano.

Um feliz ano novo, não somente para quem conheço e gosto, mas também àqueles sem rosto nem nome, perdidos no mundo e que nunca poderão ler estes votos. Que a felicidade (ou, ao menos, momentos felizes) contemple toda eternidade curta de nossas vidas.

Ótimo 2011!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

No metrô

O celular toca.
Cansado, encostado em um canto, apoiando o cotovelo sobre a janela para segurar a testa, leva o aparelho com a outra mão até o ouvido.
Um "alô" fraco sai da garganta seca, sem a mínima vontade de se manifestar.

- Calma, já estou chegando ... (longa pausa) ... É .. Atrasou um pouco ...

Mal sabe ela do outro lado o dia duro que ele teve.
Stress no trabalho, calor, vontade de deixar este mundo.
Por ter ficado mais cinco minutos no serviço, perdeu o último trem antes da falha operacional.
Toda a linha congestionada. Intervalos maiores entre as estações. Velocidade reduzida.
Um caminho que duraria meia hora, nesta primeira inteira não chegou à metade.

O operador anuncia a estação.

- É o cara do metrô. É ... Estou ... (longa pausa) ... Não, amor, não é!

Do outro lado, ela se desespera: não quer saber de mentiras. Ele sempre chegou cedo em casa e em seguida anunciava que já se encontrava no abrigo do lar pela internet. Nesses últimos dias ele parecia estranho mesmo. Calado. Ausente. Distante. Será que estava com outra? Conheceu alguém para canalizar os prazeres acumulados da rotina ou fez isso desde sempre e apenas deslizou nesta mentira em particular?
Ela grita, esperneia. Lança frases feitas e desfeitas sem dó nem razão, gaguejando entre os próprios pensamentos.

- Não. É o cara do metrô. Estou no trem!

Ela não acredita. Não bastasse mentir, chegar atrasado, não estar presente, ainda por cima com a outra durante a ligação? Todos sabem distinguir muito bem o barulho irritante velho conhecido dos usuários do transporte público metropolitano da suave voz da amante incandescente com quem deve competir pelo amor de sua vida.

O trem começa, lentamente, a andar. Embaixo de um túnel, fica mais difícil a comunicação e o som parece ensurdecedor.

- Estou entrando em um túnel ... É! Um túnel! (longa pausa) ... Alô? Alô? Alô?

Um absurdo. Em uma festa à noite, sem dar satisfações ou responder suas perguntas, ele desliga o celular. Que ótima maneira de encerrar uma discussão.

Ele olha o celular. Xinga. Vira os olhos. Bufa. Tenta novamente o contato.

- Eu entrei no túnel ... (longa pausa) ... Não, a ligação caiu!

Escutando o monólogo pelo telefone móvel de última geração que, apesar de tanta tecnologia embutida em seus poucos centímetros quadrados, não consegue sustentar uma comunicação subterrânea adequadamente, ele se irrita.

Quieto, sem argumentar, apenas ouve. E ouve. E respira fundo. E passa as mãos na testa suada pela combinação de claustrofobia e desespero. E afasta o celular. E o aproxima. E tenta. Desiste. Respira mais um pouco ...

- Não ... (longa pausa) ... Não é isso ... (longa pausa) ... Amor, me escuta ... (longa pausa) ... Amor, me escuta ... Deixa eu falar ...

O silêncio de cá comprova a eficiência - ou talvez a exagerada - retórica de lá.
Faz-se um hiato imensurável entre a última e a próxima sílaba dita.

- Olha como você fala! Cansei disso ... Eu não sou cachorro ... (longa pausa) ... Olha como você fala comigo! Eu não sou seu cachorro .... Cansei disso ...

Ele é um vulcão. Como se encontrasse forças nas frágeis almas abandonadas dos inocentes réus julgados e condenados pelo júri implacável e nem sempre justo da vida, ele explode em negações e enfrentamentos.
Decidiu não mais consentir. Calar, nunca mais.
Ele confessa todos os até então prioritariamente resguardados ódios e raivas reprimidos.
É este o momento do combate. Titãs de coração de ferro e corpos de borracha se encontram na arena sanguinária das discussões verbais amorosas, digladiando pela autoria do ponto final.

No auge dos verbos que compõe esta história, chego a minha estação.
Levanto, saio pela porta, e deixo para trás o fato, levando apenas a memória e a curiosidade natural pela continuação do presenciado ...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Niet

Escrevo a todos os leitores. Àqueles sujos, suados, fétidos e mortos cujos corações amargurados jamais descansaram sob o cinza do céu e a nuvem de paz que rodeia espírito, corpo e coração.

Sento em meio às teclas e batidas dos meus pensamentos sombrios. Na frente do mundo, vejo a luz que nunca foi revelada, mas que ainda há de vir para todos.

Tonto, cansado e sem jeito, tento escrever em um meio hostil ao qual nunca me adaptei.

Curvo, fecho os olhos que não são meus e abro as mentes igualmente sem dono.

Frio e gélido sob um calor de oitenta graus, eu finjo ser um Keourac mentiroso nas palavras que escrevi.

Antes sem querer e agora por vontade, me movo pelas ruas de São Paulo jazido e caído como um trem de carga sem censor.

Liberto de mim mesmo, eu me entrego aos movimentos repetidos inéditos aos quais aqui estão.

Em uma vontade inconseqüente e incoerente, o resultado: eu aqui e nunca mais, até a próxima solicitação.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Detalhes

Dissertar sobre assuntos já desenvolvidos exaustivamente por diversas outras pessoas não é agradável à ninguém, mas arrisco-me nessa minha aventura literária pateticamente anônima de um frenesi sincero a qual chamo de meu blog mais uma vez para jogar mais sal à velha carne mastigada dos famosos e tão importantes "detalhes".

Essas minúsculas (quase imperceptíveis) nuances que compõem o nosso dia-a-dia de fato têm enorme significado - muito além de títulos de músicas românticas de um Roberto Carlos qualquer ou pregações morais decorrentes de relacionamentos amorosos frustrados. Ainda assim acredito que, apesar unanimidade da questão no imaginário popular, pouco vemos desse conceito como fixado.

Estradas inteiras são percorridas por casais que, só na linha de chegada, no derradeiro momento onde as frases jocosas, as promessas, as indagações, as explicações nunca concluídas e toda sustentação de um tratado baseado no vazio são postos à prova e derrotados, explicitando a falta de tudo onde nada houve, perdendo a chance de encontrar um caminho verdadeiro onde as tradicionais "pequenas ações" transitam do maldito já banalizado clichê para a glória divina da real credibilidade.

Nessas últimas semanas tive a grande sorte de encontrar esse rumo. Venho experimentando velhas sensações que agora soam como inéditas.

Nunca me foi tão válido um despretensioso cochilo preguiçoso após um almoço familiar na tarde de domingo, abraçado e coberto em cama quente, sentindo a calma respiração daquela pessoa especial ao lado, a delicadeza do sono, um baixo e angelical gemido de relaxamento sucedido por um sorriso de satisfação por simplesmente descansar o corpo cansado e cheio.

Confesso que não tenho histórias inesquecíveis de imensas aventuras delirantes e invejáveis para contar. Há poucos "aquele dia lá" para mim. E não por escassez de acontecimentos interessantes, mas porque na minha humilde opinião o que tornam pessoas sensacionalmente incríveis jamais serão momentos pontuais jogados à história, truques da memória com começo e fim, mas o regozijo das miudezas rotineiras.

Não que não haja qualquer necessidade de fatos engraçados, dias eternamente registrados e, enfim, prazeres em situações particulares nas vidas de cada um. Pelo contrário, tenho total conhecimento de sua devida importância para o desenvolvimento sadio de qualquer relação duradoura. Minha conjectura baseia-se apenas em afirmar que, em verdade, é no modo de encarar o cotidiano e as vicissitudes de uma monotonia inevitável para alguns que está o segredo de tudo: do bom-dia carinhoso ao acordar, precedido por um beijo na cálida nuca descoberta de um corpo ainda sonolento, da alta discussão sobre qual será a janta - pizza ou comida chinesa, das brincadeiras e trocadilhos quase infantis feitos com nomes de estações no transporte público, das ligações telefônicas após um longo dia de trabalho apenas para saber como foi o dia do outro, dos remédios e cafunés dados e recebidos durante uma avassaladora gripe qualquer, dos churros (sempre com recheio de doce de leite e cobertura de granulado), às brigas, cócegas na cama, beijos longos ou curtos, chuvas embaixo da mesma proteção, táxis noturnos, corridas por um ônibus, origamis inesperados, apostas comprometedoras, passeios culturais, shows, ensaios, chocolates quentes de meio litro da Starbucks, alfajores orgásticos de um quiosque da Havanna, compras de supermercado ou desenhos animados assistidos na televisão, sentados no sofá comendo chocolate e rindo um do outro por rirem da mesma coisa.

Mais do que um slogan empresarial abusando da retórica para fidelização de clientes, na vida, detalhes fazem, sim, toda a diferença. Considerando a atualidade, sinto-me léguas mais feliz em cada milimétrica atitude.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Classificados

Aluga-se este espaço.

Contato: http://britonicos.webs.com (tratar com Claudio)

domingo, 15 de agosto de 2010

Mergulho

Um mergulho.
Às vezes um mergulho é tudo que uma pessoa precisa na vida.
Esquecer das vezes em que se afogou para usufruir de um oceano inteiro de possibilidades.
Parafraseando John Lennon: fugir das "piscinas de arrependimento" e aproveitar as "ondas de alegria" que o mar alheio têm a oferecer.

Há horas em que deixamos de aprender a nadar com medo de se afogar.
Na superficialidade da terra, analisamos de fora as verdadeiras profundidades naturais.

Um mergulho.
Às vezes apenas um mergulho é o responsável por nos separar entre o tudo e o nada.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O dono do risco

A folha de papel branca à frente.

Em uma mão trêmula e hesitante, a caneta.
Na outra, sua cabeça pesada de idéias leves.

Pensamentos e traços igualmente vazios.
Aquele sentimento de nada a falar - ou fazer - massivo e compreensível, mas que ninguém consegue explicar.
Quando os seus atos são como a aproximação da tinta na celulose barata e amassada em cima da mesa lisa de madeira: tão perto, tão potencialmente significativa, e ainda assim totalmente dependente.

A fome pelas palavras que ainda não foram criadas. O amargo do inominável beirando a existência no vão entre sua vida e minha alma.
De um só sorriso, tira-se ânimo e desgosto.

Um grito mudo sufoca o peito quando a mente trava.
As pernas agitadas chamam uma atenção que você por inteiro já não consegue.

Sentimentos são poemas em resposta daquilo que nunca foi dito, reflexos óbvios de forma pouco criativa: mentiras e verdades distinguem-se apenas por perspectiva.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Esperando pela ruptura

Relacionamentos humanos são elásticos: por mais que forças externas retesem sua unidade total, nunca perdem sua resiliência. Indo e voltando, muitos acreditam que no fim é eterno e inabalável se verdadeiro e dedicado.

Poucos percebem a mentira fantasiada de roteiro Disney desta crença.

Nem o mais flexível dos produtos passionais resiste à certas pressões constantes e/ou exageradas. Chega um tênue momento limítrofe entre a união fragilizada (ainda) recuperável e quebra definitiva daquilo com que se brinca.

Talvez me encontre neste limbo. Perdido, confuso e cego. Indeciso entre a razão e o sentimento. Sérias decisões - próprias e alheias – me encurralam no canto como um coelho branco inocente no breu selvagem de um quarto em um hospício.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ponto de vista

O velho abajur preto de lâmpada fluorescente aceso pela sonolenta mão direita após o contínuo grito alarmante do despertador indicando que são sete e vinte da manhã fria de uma quarta-feira de trabalho.


O quarto bagunçado, roupas jogadas em cima da cadeira e penduradas em cabides do lado de fora do armário de madeira, o colchão ainda quente e amassado pelo corpo que acabou de levantar, o relevo montanhoso do edredom azul claro largado, recriando fiordes de lã e nylon neste confortável quadricular planeta cama.


A dança hipnótica das magras persianas beges no forte ritmo musical dos ventos matinais na janela aberta da sala enquanto as folhas verdes nos vasos decorativos da sala balançam e concordam com tudo.


Você no espelho, cabelo bagunçado, pequenos e sonolentos olhos vermelhos, boca seca e pijama.


O velho tênis rasgado pisando na avariada calçada cinza na rua vazia, apenas alguns carros que dormem paralelos à guia, estabelecimentos comerciais ainda fechados e meia dúzia de árvores outonais sobrando na paisagem, outliers no gráfico metropolitano de figuras corriqueiramente apáticas estampadas mundo afora.


Trens chacoalhantes e sucateados entupidos de rostos, chapéus, livros e blazers diversos; identidades singulares perdidas na multidão inominável, homogeneizada pelo transporte púbico e de baixo custo que espreme as peculiaridades e experiências únicas de cada indivíduo em uma massa uniforme que geme e reclama e se aperta nos espaços possíveis não ocupados por bancos, mastros de aço e malas.


Nuvens arrogantes, aves silenciosas e um tímido Sol aquecendo um cachorro de rua deitado no chão, cabeça apoiada nas cansadas patas batalhadoras, olhos semicerrados por um singelo prazer natural, crianças saindo de seus aconchegantes sobrados, limpas, arrumadas, mochila nas costas, caderno nas mãos, emburradas no rosto e o senso de dever hesitando no momento de ir para a escola.


A vida começa a aparecer, assim como o dia. E me encontro filosofando comigo mesmo: nós reclamamos tanto das coisas que vemos que nos esquecemos de agradecer justamente pela incrível possibilidade de vê-las.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Algo a mais ...

Quando a comparação constante com os fantasmas do passado é um fardo muito grande a carregar.

É frustrante ver a intenção de atingir os mesmos significados perder a batalha e escorrer gélida pelos seus hesitantes dedos, como um pintor de parede tentando recriar a natureza em uma tela e não alcançar a perfeição de um Picasso – sem exposições nos museus sentimentais alheios. Há sempre (e no mínimo) um detalhe bloqueando o êxito. Aquela árvore importante que você deixou de desenhar porque se preocupou demais com o céu. Os tons, cores e relevos em contraste por sua desatenção, preteridos pela técnica do pincel que no fim de nada valia em separado do espetáculo geral da obra.

A questão do próprio desenvolvimento pessoal parece irrelevante quando vistas algumas falhas ou diferenças. Talvez, alguns nasceram para o Cordon Bleu e outros sempre queimarão o feijão e empaparão o arroz.

E a despeito do que supõe toda utópica hipótese de auto-alívio sobre as especialidades singulares que possui cada indivíduo, você perde em demasiados quesitos e diversas vertentes. Não por um fato isolado para balanceamento, mas pelo conjunto das histórias vividas, cada uma com sua peculiaridade a qual você não consegue vencer.

Implicitamente desesperado, lhe restam tentativas vãs de um diferencial significativo – aquele gesto único de esperança em tatuar na lembrança a sua existência. Se não pelo efervescente desejo de posse e entrega total que a paixão alimenta, pelo carinho contínuo, memórias e auxílio mútuo como só o amor tem a oferecer.