sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Detalhes

Dissertar sobre assuntos já desenvolvidos exaustivamente por diversas outras pessoas não é agradável à ninguém, mas arrisco-me nessa minha aventura literária pateticamente anônima de um frenesi sincero a qual chamo de meu blog mais uma vez para jogar mais sal à velha carne mastigada dos famosos e tão importantes "detalhes".

Essas minúsculas (quase imperceptíveis) nuances que compõem o nosso dia-a-dia de fato têm enorme significado - muito além de títulos de músicas românticas de um Roberto Carlos qualquer ou pregações morais decorrentes de relacionamentos amorosos frustrados. Ainda assim acredito que, apesar unanimidade da questão no imaginário popular, pouco vemos desse conceito como fixado.

Estradas inteiras são percorridas por casais que, só na linha de chegada, no derradeiro momento onde as frases jocosas, as promessas, as indagações, as explicações nunca concluídas e toda sustentação de um tratado baseado no vazio são postos à prova e derrotados, explicitando a falta de tudo onde nada houve, perdendo a chance de encontrar um caminho verdadeiro onde as tradicionais "pequenas ações" transitam do maldito já banalizado clichê para a glória divina da real credibilidade.

Nessas últimas semanas tive a grande sorte de encontrar esse rumo. Venho experimentando velhas sensações que agora soam como inéditas.

Nunca me foi tão válido um despretensioso cochilo preguiçoso após um almoço familiar na tarde de domingo, abraçado e coberto em cama quente, sentindo a calma respiração daquela pessoa especial ao lado, a delicadeza do sono, um baixo e angelical gemido de relaxamento sucedido por um sorriso de satisfação por simplesmente descansar o corpo cansado e cheio.

Confesso que não tenho histórias inesquecíveis de imensas aventuras delirantes e invejáveis para contar. Há poucos "aquele dia lá" para mim. E não por escassez de acontecimentos interessantes, mas porque na minha humilde opinião o que tornam pessoas sensacionalmente incríveis jamais serão momentos pontuais jogados à história, truques da memória com começo e fim, mas o regozijo das miudezas rotineiras.

Não que não haja qualquer necessidade de fatos engraçados, dias eternamente registrados e, enfim, prazeres em situações particulares nas vidas de cada um. Pelo contrário, tenho total conhecimento de sua devida importância para o desenvolvimento sadio de qualquer relação duradoura. Minha conjectura baseia-se apenas em afirmar que, em verdade, é no modo de encarar o cotidiano e as vicissitudes de uma monotonia inevitável para alguns que está o segredo de tudo: do bom-dia carinhoso ao acordar, precedido por um beijo na cálida nuca descoberta de um corpo ainda sonolento, da alta discussão sobre qual será a janta - pizza ou comida chinesa, das brincadeiras e trocadilhos quase infantis feitos com nomes de estações no transporte público, das ligações telefônicas após um longo dia de trabalho apenas para saber como foi o dia do outro, dos remédios e cafunés dados e recebidos durante uma avassaladora gripe qualquer, dos churros (sempre com recheio de doce de leite e cobertura de granulado), às brigas, cócegas na cama, beijos longos ou curtos, chuvas embaixo da mesma proteção, táxis noturnos, corridas por um ônibus, origamis inesperados, apostas comprometedoras, passeios culturais, shows, ensaios, chocolates quentes de meio litro da Starbucks, alfajores orgásticos de um quiosque da Havanna, compras de supermercado ou desenhos animados assistidos na televisão, sentados no sofá comendo chocolate e rindo um do outro por rirem da mesma coisa.

Mais do que um slogan empresarial abusando da retórica para fidelização de clientes, na vida, detalhes fazem, sim, toda a diferença. Considerando a atualidade, sinto-me léguas mais feliz em cada milimétrica atitude.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Classificados

Aluga-se este espaço.

Contato: http://britonicos.webs.com (tratar com Claudio)

domingo, 15 de agosto de 2010

Mergulho

Um mergulho.
Às vezes um mergulho é tudo que uma pessoa precisa na vida.
Esquecer das vezes em que se afogou para usufruir de um oceano inteiro de possibilidades.
Parafraseando John Lennon: fugir das "piscinas de arrependimento" e aproveitar as "ondas de alegria" que o mar alheio têm a oferecer.

Há horas em que deixamos de aprender a nadar com medo de se afogar.
Na superficialidade da terra, analisamos de fora as verdadeiras profundidades naturais.

Um mergulho.
Às vezes apenas um mergulho é o responsável por nos separar entre o tudo e o nada.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O dono do risco

A folha de papel branca à frente.

Em uma mão trêmula e hesitante, a caneta.
Na outra, sua cabeça pesada de idéias leves.

Pensamentos e traços igualmente vazios.
Aquele sentimento de nada a falar - ou fazer - massivo e compreensível, mas que ninguém consegue explicar.
Quando os seus atos são como a aproximação da tinta na celulose barata e amassada em cima da mesa lisa de madeira: tão perto, tão potencialmente significativa, e ainda assim totalmente dependente.

A fome pelas palavras que ainda não foram criadas. O amargo do inominável beirando a existência no vão entre sua vida e minha alma.
De um só sorriso, tira-se ânimo e desgosto.

Um grito mudo sufoca o peito quando a mente trava.
As pernas agitadas chamam uma atenção que você por inteiro já não consegue.

Sentimentos são poemas em resposta daquilo que nunca foi dito, reflexos óbvios de forma pouco criativa: mentiras e verdades distinguem-se apenas por perspectiva.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Esperando pela ruptura

Relacionamentos humanos são elásticos: por mais que forças externas retesem sua unidade total, nunca perdem sua resiliência. Indo e voltando, muitos acreditam que no fim é eterno e inabalável se verdadeiro e dedicado.

Poucos percebem a mentira fantasiada de roteiro Disney desta crença.

Nem o mais flexível dos produtos passionais resiste à certas pressões constantes e/ou exageradas. Chega um tênue momento limítrofe entre a união fragilizada (ainda) recuperável e quebra definitiva daquilo com que se brinca.

Talvez me encontre neste limbo. Perdido, confuso e cego. Indeciso entre a razão e o sentimento. Sérias decisões - próprias e alheias – me encurralam no canto como um coelho branco inocente no breu selvagem de um quarto em um hospício.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ponto de vista

O velho abajur preto de lâmpada fluorescente aceso pela sonolenta mão direita após o contínuo grito alarmante do despertador indicando que são sete e vinte da manhã fria de uma quarta-feira de trabalho.


O quarto bagunçado, roupas jogadas em cima da cadeira e penduradas em cabides do lado de fora do armário de madeira, o colchão ainda quente e amassado pelo corpo que acabou de levantar, o relevo montanhoso do edredom azul claro largado, recriando fiordes de lã e nylon neste confortável quadricular planeta cama.


A dança hipnótica das magras persianas beges no forte ritmo musical dos ventos matinais na janela aberta da sala enquanto as folhas verdes nos vasos decorativos da sala balançam e concordam com tudo.


Você no espelho, cabelo bagunçado, pequenos e sonolentos olhos vermelhos, boca seca e pijama.


O velho tênis rasgado pisando na avariada calçada cinza na rua vazia, apenas alguns carros que dormem paralelos à guia, estabelecimentos comerciais ainda fechados e meia dúzia de árvores outonais sobrando na paisagem, outliers no gráfico metropolitano de figuras corriqueiramente apáticas estampadas mundo afora.


Trens chacoalhantes e sucateados entupidos de rostos, chapéus, livros e blazers diversos; identidades singulares perdidas na multidão inominável, homogeneizada pelo transporte púbico e de baixo custo que espreme as peculiaridades e experiências únicas de cada indivíduo em uma massa uniforme que geme e reclama e se aperta nos espaços possíveis não ocupados por bancos, mastros de aço e malas.


Nuvens arrogantes, aves silenciosas e um tímido Sol aquecendo um cachorro de rua deitado no chão, cabeça apoiada nas cansadas patas batalhadoras, olhos semicerrados por um singelo prazer natural, crianças saindo de seus aconchegantes sobrados, limpas, arrumadas, mochila nas costas, caderno nas mãos, emburradas no rosto e o senso de dever hesitando no momento de ir para a escola.


A vida começa a aparecer, assim como o dia. E me encontro filosofando comigo mesmo: nós reclamamos tanto das coisas que vemos que nos esquecemos de agradecer justamente pela incrível possibilidade de vê-las.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Algo a mais ...

Quando a comparação constante com os fantasmas do passado é um fardo muito grande a carregar.

É frustrante ver a intenção de atingir os mesmos significados perder a batalha e escorrer gélida pelos seus hesitantes dedos, como um pintor de parede tentando recriar a natureza em uma tela e não alcançar a perfeição de um Picasso – sem exposições nos museus sentimentais alheios. Há sempre (e no mínimo) um detalhe bloqueando o êxito. Aquela árvore importante que você deixou de desenhar porque se preocupou demais com o céu. Os tons, cores e relevos em contraste por sua desatenção, preteridos pela técnica do pincel que no fim de nada valia em separado do espetáculo geral da obra.

A questão do próprio desenvolvimento pessoal parece irrelevante quando vistas algumas falhas ou diferenças. Talvez, alguns nasceram para o Cordon Bleu e outros sempre queimarão o feijão e empaparão o arroz.

E a despeito do que supõe toda utópica hipótese de auto-alívio sobre as especialidades singulares que possui cada indivíduo, você perde em demasiados quesitos e diversas vertentes. Não por um fato isolado para balanceamento, mas pelo conjunto das histórias vividas, cada uma com sua peculiaridade a qual você não consegue vencer.

Implicitamente desesperado, lhe restam tentativas vãs de um diferencial significativo – aquele gesto único de esperança em tatuar na lembrança a sua existência. Se não pelo efervescente desejo de posse e entrega total que a paixão alimenta, pelo carinho contínuo, memórias e auxílio mútuo como só o amor tem a oferecer.